Danilo se abre sobre carreira por São Paulo e Corinthians e revela frustração na carreira
Danilo é objetivo. Usa frases curtas e diretas que revelam com clareza o que pensa um bicampeão mundial. Dono de uma fala mansa e de um jeito discreto, quase tímido, ele saiu do interior de Minas Gerais para se tornar ídolo de dois dos maiores rivais do futebol brasileiro: São Paulo e Corinthians.
Lento? Danilo comenta sobre críticas e comparações a Zidane
No fim de 2009, depois de três anos no futebol japonês, Danilo estava pronto para voltar ao Tricolor Paulista, onde havia conquistado a Libertadores e o Mundial de Clubes. Mas as conversas esfriaram, e o destino o levou ao Parque São Jorge, onde escreveu um novo capítulo vencedor.
– É uma decisão difícil você sair do seu lugar onde você é ídolo e ir para um rival. Mas eu sempre fiz a minha parte muito bem feita. Então eu cheguei no Corinthians e falei: "Vou fazer a minha história do zero".
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Danilo, em entrevista ao Abre Aspas
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No Corinthians, Danilo conquistou a torcida e se colocou como um dos jogadores mais vencedores do futebol nacional. Mas, no Abre Aspas, admite uma lacuna na carreira: a ausência na Seleção Brasileira.
"Pelo menos um jogo, um amistoso, eu poderia ter ido (para a Seleção Brasileira)", lamenta.
Ao ge, Danilo falou sobre esse e outros temas. Revelou detalhes da negociação frustrada com o São Paulo que acabou abrindo caminho para sua chegada ao Corinthians. Comparou as duas maiores conquistas da carreira, os Mundiais de 2005 e 2012. Meia clássico quando atleta, refletiu sobre a escassez dos tradicionais camisas 10 no futebol brasileiro.
– [O camisa 10] está em falta por conta do estilo do jogo que está hoje em dia. Tem vários treinadores que jogam com três volantes e três atacantes, abrem mão desse meia, desse cara mais lento, mais pensativo. No meu time, esse cara é fundamental, porque, com uma jogada, ele decide.
Danilo diz quem foi melhor: São Paulo de 2005 ou Corinthians 2012?
Treinador em início de carreira, Danilo recebeu o Abre Aspas pouco antes de conquistar seu primeiro título nacional na nova função: a Série D do Campeonato Brasileiro pelo Uberlândia. O currículo à beira do campo ainda é curto, mas os primeiros passos na área técnica indicam que ele segue no caminho das vitórias.
Ficha Técnica
Nome: Danilo Gabriel de Andrade
Apelido: Zidanilo
Idade: 11/06/1979 (47 anos)
Clubes como jogador: Goiás, São Paulo, Kashima Antlers (Japão), Corinthians e Vila Nova-GO
Títulos como jogador: Mundial de Clubes (2005 e 2012); Libertadores (2005 e 2012); Recopa Sul-Americana (2013), Brasileirão (2006, 2011, 2015 e 2017); Campeonato Japonês (2007, 2008 e 2009); Copa do Imperador do Japão (2007); Supercopa do Japão (2009); Campeonato Paulista (2005, 2013 e 2018) e Campeonato Goiano (1999, 2000, 2002 e 2003).
Clubes como treinador: Corinthians (sub-20), Pouso Alegre e Uberlândia.
Títulos como treinador: Copa São Paulo de Futebol Jr. (2024), Mineiro do Interior (2026) e Série D do Brasileirão (2026).
Abre Aspas Danilo
Natália Camargo
Abre Aspas: Danilo
ge: Você saiu de Ibiá para se tornar um dos jogadores mais vencedores do futebol brasileiro. Quando olha para trás, o que mais vem à cabeça daquele garoto que ajudava o pai na serralheria?
— As memórias são as melhores possíveis. Eu tinha um sonho de ser um jogador de futebol desde pequenininho. Eu já era alucinado com futebol. Às vezes, dava até trabalho na escola, só queria jogar futebol. Não queria nem ajudar meu pai lá no trabalho. Ele até brincava: "tem que ter um bom jeito de jogar futebol, porque é muito viciado". Gostava. Até o meu bolo de aniversário tinha que ser de campo de futebol. Presente era só camisa de futebol, era bola, era chuteira. Depois, eu fui ter essa oportunidade. Graças a Deus, eu consegui realizar meu sonho, que era ser um atleta para o profissional.
Qual a importância do seu pai nesse começo da sua carreira?
— Meu pai foi o maior incentivador. Ele ia para os meus jogos, na época de novinho, com 9, 10, 11 anos, nas escolinhas. Os jogos que eu fazia, ele até brigava com todo mundo lá fora, não deixava ninguém falar mal. Sempre me apoiou.
Você tinha o sonho de ser um jogador de futebol. Já imaginava, quando começou, que chegaria a ter uma carreira desse tamanho?
— Eu acho que toda criança tem hoje em dia esse sonho de chegar lá, de jogar, então era o meu sonho também. Eu lembro até hoje. Às vezes, cidade pequena é difícil, tem muita gente que não confia no seu potencial, acha que não vai dar nada. Outra coisa que acontece muito, que eles falam: "ah, o fulano de tal é melhor do que você aqui na cidade. Ele não jogou, você vai jogar?". Acontece isso em toda função e carreira que a gente tem.
— O sonho que eu tinha era de ter um jogo ao vivo na televisão, e meu pai assistir. Lembro até hoje. Quando eu subi em 1999 [no Goiás], era um jogo contra o Vasco. Eu tinha sido relacionado para o jogo ao vivo para o Brasil inteiro, no Serra Dourada. Tinha uma substituição para fazer, o treinador era o Hélio dos Anjos. Aquela última substituição, faltando cinco minutos, ele me chama. Entrei nas nuvens no campo e entrei muito bem no jogo. Lembro até hoje que, quando acabou o jogo, eu desci correndo na escadaria para pegar meu telefone e mandar mensagem para o meu pai para saber se eles tinham visto. Então senti meio que um alívio ali: "meu pai me viu jogar na televisão, consegui." Isso é uma coisa que ficou muito marcada para mim. Eu fui correndo lá para avisar, para ver se ele tinha visto o jogo que esse era o sonho meu.
E ele tinha visto?
— Viu. Todo mundo. Todo mundo ligado, família inteira.
Como foi para você sair de uma cidade pequena e se mudar para Goiânia? A adaptação foi difícil naquele começo?
— Difícil, sim. Você sair de uma cidade pequena igual a Ibiá, na época tinha 10 mil habitantes, e você vai chegar em Goiânia. Não é fácil a adaptação com 16 anos. Você vai para um alojamento onde não conhece ninguém. Nós éramos 12 lá, cada um de um lugar do Brasil. Acaba virando uma família ali. Não é fácil, mas a gente precisa passar por isso. Eu vejo que tem muitos atletas, muitos garotos que às vezes vão, até tem potencial, mas acabam não ficando por isso. Essa dificuldade de ficar longe da família, dos pais, dos irmãos. É uma adaptação muito difícil.
Você pensou em desistir em algum momento?
— No início, quando eu fui, às vezes eu ligava para minha mãe e falava para ela [que ia desistir]. E você sabe como é mãe: "eu, por mim, você vem, mas você precisa falar com seu pai, fala com ele, aí". Eu falava e ele: "não, você vai ficar aí. Você vai vir embora trabalhar comigo aqui na serralheria? Eles querem te mandar embora?" "Não, pai está tudo certo". "Então você vai ficar aí, até o dia que eles te mandarem embora". Esses cinco meses ali foram muito difíceis. Depois de cinco meses, você acaba já adaptando no lugar. Já viva a realidade do clube ali. Mas nesses cinco meses aí foi difícil.
Como foi aquele torneio em São Gotardo que abriu as portas para você no futebol?
— Eu sempre morei em Ibiá, então eu jogava futebol de salão e campo lá. Minha família era toda de São Gotardo, daí teve um torneio lá de juvenil, de 16, 17 anos. Foi onde o meu tio comentou com o pessoal: "meu sobrinho lá de Ibiá joga, é muito bom. Ele vai ajudar vocês aqui". Acabei indo para lá. Eu me destaquei nesse torneio, fui um dos melhores jogadores lá e acabei indo para o Atlético-MG. Fiquei lá uns 20 dias. Eu lembro até hoje que o treinador do Goiás, na época, tinha falado com o meu tio: "Vou deixar meu telefone aqui com você. Às vezes não dá certo, futebol é muito dinâmico, talvez se ele não passar lá, não caminhar, eu quero que ele vá para o Goiás. Eu sou treinador, arrumo tudo lá para ele".
— Lembro que era dia de eleição, no final de semana eu não ia jogar lá no Atlético-MG. Eu tinha que estar na segunda-feira lá. Acabei indo para casa, porque era perto, BH e Ibiá. Cheguei e falei para o meu pai, como que estava, o jeito que estava tendo os treinos, não estava tendo muita oportunidade, não estava treinando com o pessoal que era do clube, era pessoal mais de teste, aí você tem mais dificuldade. Ele falou com o meu tio. Meu tio: "não, o treinador deixou o telefone aqui, vamos ligar para ele, perguntar para ver como funciona. Talvez em vez de ir para lá, você vai para o Goiás". Foi a cartada. Foi a decisão certa. É meio que destino de Deus mesmo, porque tomar uma decisão dessa não é fácil. Até deixei roupas lá no Atlético-MG. Eu teria que voltar na segunda-feira, e nós tomamos essa decisão de ir lá para Goiânia. O treinador falou com o diretor: "você tem que estar aqui segunda-feira". Então foi aquela tomada de decisão ali. Para mim, para minha vida, para minha carreira, foi fundamental.
Você costuma dizer que os jogadores mais experientes te incentivavam e te inspiravam. Quais jogadores te ajudaram nesse começo de carreira?
— Eu subi com 19 anos no Goiás. Eu tive o privilégio de jogar com vários jogadores lá também. Joguei com o Evair, com o Bismarck, que são jogadores que a gente tinha como ídolo. É só lembrar do Evair no Palmeiras, do Bismarck no Vasco, na seleção brasileira. Você iniciar a carreira com um pessoal desse, para gente, é um privilégio.
No começo, no Goiás, você jogou só de meia? Ou fez todas as posições no ataque?
— Eu era aquele 10, meia mesmo. Mas eu jogava aberto pelos lados, eu fazia o falso 9. Do meio para frente, eu joguei em quase todas as posições. Eu até uso hoje, como treinador. Gosto também de, às vezes, não usar o centroavante. Uso um 10 ali flutuando, puxando espaço, com movimentos, que a gente fala que é o falso 9. Eu joguei assim também, eu acho que é uma posição que dá para o camisa 10 fazer. É só questão de treinamento e posicionamento.
E falando do camisa 10, você não abre mão de ter esse jogador que pensa o jogo, que arma o jogo, esse camisa 10 de fato. O quão importante é ter esse jogador em um time de futebol?
— É fundamental. Além de eu ter sido esse camisa 10, eu gosto porque é um jogador diferente, que em uma jogada decide o jogo. Com uma jogada, ele bota o companheiro na cara do gol. Às vezes, ele não vai te ajudar muito na marcação, mas vai te resolver os seus problemas lá na frente. Vejo que esse jogador é fundamental.
Está em falta o camisa 10 hoje no futebol?
— Está em falta. Eu acho que é o estilo do jogo mesmo que está hoje em dia. Tem vários treinadores que jogam com três volantes e três atacantes, abrem mão desse meia, desse cara mais lento, mais pensativo. Aí é de cada um, né? Eu vejo que, para mim, no meu time, esse cara é fundamental.
Pensando na seleção brasileira e na Copa do Mundo que a gente acabou de passar, você acha que fez falta um camisa 10 um pouco mais definido para pensar o jogo?
— Acho que fez. Porque, com uma jogada, ele decide. A gente tem o exemplo do Messi na Argentina. Às vezes, os outros companheiros dele não têm tanta qualidade, mas ele é o cara com diferencial, que vai fazer a diferença.
Você sempre teve esse talento de ver o jogo, de enxergar o melhor passe, ter a finalização boa. O atleta nasce com isso, ou é algo que dá para se desenvolver?
— Era uma característica minha a finalização, essa qualidade. Acho que desde pequeno eu tive que aprender mais ainda. Então eu fui lapidado, tive grandes treinadores que me desenvolveram e ajudaram muito no decorrer da minha carreira.
A liberdade de fazer algo diferente em campo também está em falta hoje?
— Também. Eu acho que não adianta você passar muita informação para o atleta, porque você acaba tirando a melhor qualidade que ele tem. Eu acho que isso é uma virtude também do treinador. De entender que tem atleta que é mais rápido, outro, que é mais lento. Um vai te ajudar de um jeito. Outro vai jogar de outra forma. Não adianta eu pedir uma coisa que ele não vai fazer.
Após o Goiás, você foi para o São Paulo. Como foi essa chegada ao Tricolor?
— Eu cheguei ao São Paulo com 24 anos. Foi totalmente diferente. Era um ano que o São Paulo ia jogar a Libertadores. Eu saio do Goiás, vou para um clube tão grande, morar em São Paulo, tudo diferente. Foi um ano muito de adaptação para eu poder fazer história num grande clube igual o São Paulo.
Em uma entrevista, você afirmou que, quando chegou ao São Paulo, percebeu que precisava dar algo mais para conseguir jogar no meio de tantos jogadores. Como foi esse trabalho?
— Os jogadores de qualidade na época lá eram muito bons. Eu meio que comecei a olhar nos treinamentos, e percebi que eu precisava fazer algo diferente, porque eu era um cara que tinha qualidade e os outros também tinham. Eu precisava competir mais, treinar mais, ajudar mais, marcar. Foi uma coisa que me ajudou muito na sequência da minha carreira.
No São Paulo, você chegou e deu certo, de cara. Como o seu estilo combinou com o São Paulo?
— O São Paulo é mais para jogador técnico. Eu acho que era mais meu estilo. Tecnicamente um jogador mais clássico, então isso aí me ajudava muito. Essas características que eu falei que eu tive que melhorar para que eu pudesse ter uma diferença dos outros companheiros para jogar. Porque todo mundo lá tinha muita qualidade.
Os títulos pelo São Paulo também ajudaram nessa identificação com a torcida?
— É igual eu falo para os meus jogadores. Eu cito muito isso: para o futebol você tem que ganhar, você tem que ser campeão, você tem que ter gana para ser campeão. A única coisa que fica marcada no clube quando você sai, são os títulos. Se você foi campeão, se subiu, se ganhou, se você não ganhou, eu falo que é mais um jogador que passou. Daqui a pouco, ninguém nem lembra que você jogou no clube. A gente tem que ter essa gana para ganhar, para ficar marcado na história do clube.
Tinha até pessoas que falavam que você às vezes era lento, que não corria tanto. Qual a sua opinião sobre essas críticas?
"É característica, não adianta, né? Eu não era rápido, mas eu ganhava toda bola de cabeça, eu não perdia uma bola, eu tinha o passe, eu finalizava. Às vezes, o cara mais rápido não tem isso. Então é uma característica, não tem como".
E chegou a te incomodar essa crítica?
— Não, não, sempre levei na melhor forma possível. Acho que isso ajuda até a gente a evoluir, a melhorar. Eu acho que tem que ter autocrítica, era uma coisa que eu precisava melhorar mesmo, ser mais participativo, é o que procurei fazer.
Quem corre é a bola, Danilo?
— O camisa 10, na posição que eu jogava, eu não precisava ser rápido, eu tinha que ser inteligente. Eu tinha que ter o bom passe, eu tinha que ter uma boa finalização. Ali não adianta ser rápido. Rápido são os atacantes pelas beiradas, os laterais que precisam ter velocidade.
Essa qualidade fez com que a torcida de São Paulo te desse o apelido de "Zidanilo". Como é que você recebeu essa comparação com o Zidane?
— É um privilégio grande. A gente sabe, o que jogou o Zidane é brincadeira, né? Então você ter esse apelido de Zidanilo para mim foi um privilégio e uma gratidão muito grande por ser comparado com ele.
Você acha que era parecido mesmo o seu estilo de jogo com o Zidane?
— Um pouco, né? Não posso, assim, falar que é totalmente, a característica é de cada um. Os gols que ele fazia e os que eu fazia também, eram muito parecidos.
O Zidane foi um jogador que faz a bola correr, e ele também não corria...
— Ele não era um cara muito rápido, era um cara inteligente, que tem o passe, tem a boa finalização. No meu caso, era muito isso também. Eu era um meia que entrava na área, que fazia muitos gols também. Geralmente, tinham muitos meias que ficavam mais para trás, só com passe. Eu não. Fazia o passe, tinha finalização, entrava área. Acho que isso fez a diferença na minha carreira.
O Fábio Santos revelou em uma entrevista que você, em jogos grandes, clássicos, entrava no ônibus e dormia até o estádio. Essa tranquilidade era importante na hora de entrar em campo?
— Tem um que é mais agitado, outro que fala mais, um que fala menos, etc.
"É de cada um, acho que meu jeito tranquilo é melhor para lidar com as situações, ainda mais no futebol que é um esporte que é muito mental. Se você é muito pilhado, acaba atrapalhando as decisões na hora do jogo".
— Às vezes o jogo inteiro você vai ter uma oportunidade. Se tomar decisões quando você está mais tranquilo, em todos os setores da nossa vida vai ser bom.
Fez diferença nos clássicos? Você disse na época que ficava olhando no calendário quando teria um clássico, para poder voltar a jogar bem de novo...
— Pois é, fizeram até matéria falando sobre isso, se eu fazia alguma coisa diferente nos clássicos, porque às vezes no outro jogo, com um time menor, eu não conseguia. Mas também eu olhava para o outro lado. Em um jogo com os times menores, eu era muito marcado. Então os caras marcavam muito e eu acabava tendo pouco espaço. Aí chegava no clássico, como é um time grande, aí você acaba tendo mais espaço, onde eu sobressaía.
Como essa tranquilidade te ajudou a ser jogador decisivo que você foi na sua carreira?
— Eu acho que ajudou muito. Isso é meu jeito. Eu falo que puxei um pouco a minha mãe, que sempre está tranquila, sempre serena, vive o momento bom e ruim do mesmo jeito. Acho que isso é uma virtude. Principalmente no futebol. O futebol é muito mental. Você tem que ter um mental muito bom. Se você for muito agitado na hora decisiva, você pode acabar atrapalhando. Então, acho que esse momento para mim é fundamental, porque todos os jogos decisivos que tinha, eu saia sempre o melhor jogador, sempre decidi o jogo com gol ou com passe. Minha carreira inteira foi dessa forma.
A tranquilidade faz a diferença, inclusive, em alguns lances. Por exemplo, um passe de calcanhar no final da Libertadores contra o Boca. E a caneta do Ivanovic na final do Mundial contra o Chelsea. Como é que foi essa história da caneta?
— Mas isso é a qualidade. Não adianta ser tranquilo ou agitado (risos). Isso é a qualidade, graças a Deus, que eu tenho. E me ajudou muito. O Tite até brincava. E depois, no jogo, ele comentou. Ele falou que era jogo de pegar a bola do meio para trás, e que do meio para frente podia dar caneta para todo mundo. E eu dei a caneta lá atrás. E depois ele comentou que lá atrás é perigoso. Ele até brincou com essa situação da caneta. Mas eu acho que era um grande adversário, mas nessa hora, é ter a qualidade de tentar arriscar. E deu certo.
Depois da saída do São Paulo, você foi para o Japão, jogou no Kashima Antlers e virou ídolo lá também. Quais suas memórias dessa passagem?
— Muito bom. Totalmente diferente, mas foram três anos que eu tenho muita saudade de lá. Porque foi uma fase muito boa. Chegamos lá, e o Kashima tinha seis anos que não ganhava nada. O Kashima é o time que o Zico jogou lá. O Zico tem até estátua lá. E a gente chegou lá com o Oswaldo [de Oliveira], o Fabão [ex-zagueiro] também foi comigo na época. E a gente ganhou cinco títulos lá em três anos. Então foi uma fase boa na minha vida que morei lá e fui campeão, que é o que mais importa.
No Japão, você teve algumas experiências que te ajudaram na volta para o Brasil?
— O futebol japonês é muito rápido. No primeiro ano mesmo, eu tive muita dificuldade para jogar lá. Porque eu sempre fui um atleta que segurava muito bem a bola, tinha proteção muito boa. E no futebol japonês, você protegia a bola de um, os outros dois vinham e roubavam só a bola. A pressão era muito grande em cima da bola. Sempre chegavam dois. No primeiro ano, eu tive uma dificuldade muito grande. Aí no segundo ano, eu já consegui jogar melhor, por ter essa adaptação no futebol de lá, de tocar mais rápido, não ficar com a bola. Quando eu voltei para o Corinthians na época, isso me ajudou muito.
Para quem saiu de Ibiá para Goiânia, já foi um susto. Sair do Brasil e ir para o Japão também foi um susto no estilo de vida?
— Muda tudo. É totalmente diferente. A língua, por exemplo, a gente não fala nada. O clima lá às vezes muito frio, às vezes muito quente. Mas eu gostei, gostei. Confesso que gostei. Hoje eu até brinco ainda. Se Deus quiser, eu ainda quero voltar e trabalhar lá como treinador. A minha adaptação lá foi boa, eu morei três anos. Então se tiver uma oportunidade, com certeza eu irei.
E teve chance de ir para a Europa como jogador?
— Não, não. Só teve essa fase mesmo, que foi para o Japão. Acabei voltando e depois eu fiquei muito tempo no Corinthians. Acabei ficando dez anos ali depois. Por onde eu passei, acabei ficando muito tempo, vinculando muito aos clubes.
Mas era uma vontade sua ir para a Europa, ou nunca passou pela sua cabeça?
— É oportunidade que não apareceu. Se tivesse aparecido alguma oportunidade, algum momento, você acaba analisando se compensa ou não. Tem vários aspectos que você precisa entender e ver o que é melhor para você no momento.
Você falou sobre ficar muito tempo nos clubes. Hoje em dia isso acontece menos, tem muita rotatividade. Isso também mudou muito no futebol?
— Eu acho negativo, porque tem atletas que, em um ano, vão em três clubes. Isso dificulta bastante. Eu tenho como exemplo o clube ter a base e manter esse mesmo time por muito tempo. No Goiás, por exemplo, eu subi em 1999 e saí em 2004. Lá foi pentacampeão goiano, tricampeão da Centro-Oeste. Então foram cinco, seis anos. Manteve a base e ganhou tudo. Depois eu fui para São Paulo. De 2005 a 2008, se eu não me engano, ganhou tudo de novo. Depois, desmancha todo mundo. Cada um vai para um lado. E o outro jogador que chega não se adapta ao clube. E aí o clube fica um tempão sem ganhar. O São Paulo desmontou aquele time e até hoje está em dificuldade. E depois tem o Corinthians também. Eu cheguei em 2010, e não ganhamos nada. Mas a partir de 2011 até 2018, ganhamos tudo. Mas tinha a base, mantinha os atletas. Era um ou outro atleta que saía. Eu acho que isso faz falta hoje em dia, de manter a base por bastante tempo.
Danilo revela que negociação frustrada do São Paulo o levou ao Corinthians
Veio a oportunidade de voltar para o Brasil e foi para o Corinthians. Chegou a pensar em uma rejeição por ser muito identificado com o São Paulo?
— Eu era ídolo no São Paulo. Campeão da Libertadores, do Mundo, Paulista, Brasileiro. Tinha ganhado tudo. E até então eu queria voltar nesse último ano no Japão. O empresário era o Gilmar Rinaldi na época, e a gente já vinha conversando com o São Paulo. O São Paulo tinha procurado. Ele falava: o Danilo quer voltar. No ano que vem, ele vai voltar. E a gente ficou conversando por uns dois meses mais ou menos.
"As conversas com o São Paulo deram uma esfriada. Na época, eles optaram, em vez de me trazer para o São Paulo, por mais três jogadores: Carlinhos Paraíba, o Marcelinho Paraíba e o Léo Lima".
— Eles esfriaram, optaram por isso, e eu acabei indo para o Corinthians. Uma decisão que não é fácil. Você sair do seu lugar onde você é ídolo e ir para um rival. Mas eu sempre fiz a minha parte muito bem feita. Então eu cheguei no Corinthians e falei: “vou fazer a minha história do zero”. E a minha história foi construída muito boa lá também. É coisa de Deus mesmo. E foi uma decisão que, graças a Deus, na minha carreira foi fundamental para a sequência.
Seu primeiro gol com a camisa do Corinthians foi, justamente, contra o São Paulo. Foi um sinal?
— Eu tinha jogado uns jogos e não tinha feito gol. O meu primeiro gol pelo Corinthians foi contra o São Paulo. E depois foram vários jogos assim. Se eu não me engano, foram quatro ou cinco gols que fiz. Todo clássico, eu fazia gol contra o São Paulo. Todo mundo me perguntava se era alguma coisa ou se eu fazia alguma coisa diferente. Eu não fazia nada diferente. É porque a bola sobrava mesmo em um jogo decisivo como esse.
E ajudou a espantar um pouquinho da desconfiança da torcida?
— Com certeza. O gol na estreia, fica aquela se você vai comemorar ou não. Eu também tenho um pensamento sobre isso. Eu sou jogador do Corinthians. Tem vários atletas que não comemoram. Eu não. Eu sou jogador do Corinthians, e o melhor momento, que é o gol, você tem que comemorar. O que eu fiz no São Paulo, tenho um respeito muito grande. Mas só que eu estava no Corinthians. A gente tem que respeitar o clube onde você passou, mas procurar fazer a sua história onde você está.
E tinha muita provocação? A galera do São Paulo pegava no seu pé?
— Até hoje em dia, tem muito são-paulino que às vezes fica com o pé atrás comigo por causa disso. "Você jogou no Corinthians, você virou corintiano". Mas eu não vejo por esse lado não. Quando é um atleta profissional, onde você está, você precisa dar o seu melhor. Mas isso é coisa mais do torcedor.
Você já disse que jogar no Corinthians é mais difícil do que em outros times. Por que você acha isso?
— Não é que é mais difícil. É um time que cobra bastante. Para você jogar no Corinthians, você tem que ter um mental muito forte. Porque você tem que ganhar todo jogo, é um torcedor que é muito apaixonado mesmo, ele vai cantar do início até o final. A cobrança é muito grande. E o estilo de jogo também. Você tem que competir, dar carrinho. O Corinthians é um clube que, só tecnicamente, você não vai conquistar o torcedor. Você precisa se doar no campo, precisa brigar por todas as bolas. E o São Paulo já vejo diferente. São Paulo é o lugar em que o jogador é mais técnico, mais clássico. Tem vários jogadores que às vezes vão para o Corinthians e não dão certo. E às vezes vai para o São Paulo e dá certo. É a característica do clube.
Te surpreende muito pensar que é ídolo tanto do São Paulo quanto do Corinthians?
— Isso é um privilégio. Agradeço a Deus por isso, por onde eu passei eu tenho títulos, fomos campeões. Espero que agora como treinador seja assim. Comecei muito bem. Deus vem me abençoando.
Proibido ficar em cima do muro: quem foi melhor? São Paulo de 2005 ou Corinthians de 2012?
São Paulo de 2005, porque o time do Liverpool era bem melhor do que o Chelsea"
Contra o Liverpool, vocês ficavam correndo atrás da bola, e contra o Chelsea foi mais jogado. Qual sua análise?
— [Contra o Chelsea], conseguiu jogar mais, mas eu digo que é mais pela qualidade do time. O time do Liverpool, para mim, era muito bom, muito acima. E o Chelsea não era tão bom assim. A gente conseguiu jogar mais. Tinha saído o Drogba, alguns jogadores também. Isso aí fez diferença.
Melhores momentos: São Paulo 1 x 0 Liverpool pela final do Mundial de Clubes de 2005
Você quem iniciou a jogada para o gol do Guerrero. Naquele momento, com a bola viajando em direção ao atacante, o que passou pela sua cabeça?
— Não passa nada. O lance é muito rápido. O importante é quando você vê a bola já dentro do gol, que é o principal. Independentemente de quem tenha feito o gol. Muitos torcedores falam que aquele gol poderia ter sido meu, por toda a história que eu tenho no clube. Mas eu até brinco: não, o importante é nós ganharmos, independente de quem fazia o gol.
Ainda falando de Mundiais, nenhum outro brasileiro ganhou Mundial depois do Corinthians de 2012. Por que existe essa distância tão grande do futebol sul-americano para o europeu?
— É difícil. A gente sabe que não é fácil ir para lá e ganhar. Ainda mais nesse formato que ficou agora. Até comento com os meninos às vezes que esse Mundial nós vamos passar muito tempo sem ter um sul-americano que vai ganhar. Vai ser difícil, porque hoje em dia você tem que ganhar cinco, seis jogos. Na época, antes, eram dois jogos só. Aí a dificuldade aumentou mais ainda.
A gente pensa muito no Mundial e na Libertadores. Mas qual outro jogo também foi importante para você nessa passagem pelo Corinthians?
— Eu acho que o jogo mais importante que teve, não só para mim, eu acho que para história do Corinthians, foi meu gol na semifinal contra o Santos, que empatou 1x1 e levou o Corinthians à primeira final do Libertadores. O clube tinha mais de 100 anos e nunca tinha ido numa final. Então tem um privilégio muito grande de ter feito esse gol e levado um clube tão grande a primeira vez na história na final do Libertadores.
Danilo fez o gol de empate do Corinthians contra o Santos no jogo de volta da semifinal da Libertadores e garantiu vaga na final
Os torcedores ainda te agradecem?
— Sempre falam, porque isso aí entra para história do clube. Vai passar muitos anos, e isso aí vai ficar marcado para sempre. Foi o gol que levou o Corinthians à final.
Quando foi para o Corinthians, chegou a jogar com o Ronaldo Fenômeno. Como era a convivência dentro de campo?
— Muito bom, e eu cheguei junto com o Roberto Carlos também. Tinha o Roberto Carlos e o Ronaldo. Tive o privilégio de jogar com ele, na minha opinião, foi um dos melhores jogadores do mundo e que vi jogar. E você está jogando ali do lado dele, é um privilégio, e era um grande profissional dentro e fora do campo. Por isso que conquistou tudo que conquistou na vida. É diferenciado, muito diferente. É um jogador que dispensa comentários.
E fora de campo, como era o Ronaldo no dia-a-dia, nos treinos, no momento de descontração?
— Nada diferente. Brincalhão com todo mundo, pegava no pé de todo mundo. Com certeza, um ambiente muito tranquilo.
No Corinthians, você teve uma lesão grave que quase te tirou dos gramados. Como foi esse momento?
— Uma lesão muito séria. Como o Joaquim Grava, que era o médico na época, disse: uma lesão rara, que nunca teve no futebol. Foi uma lesão de tíbia, fíbula, veia, artéria e nervo. Ele até falou que, se tivesse jogando em um lugar que não tinha todas as condições, era perigoso eu ter perdido a perna. Tinha cortado a minha artéria. E foi um período muito difícil, muita dor. Até fazer a cirurgia foi muito complicado. Mas além de tudo isso, ainda voltei a jogar. Foi uma coisa que ele mesmo fala, que só voltou a jogar porque era ele. Se é outro, não tínhamos passado por tudo aquilo ali e dado a volta por cima. Eu fui muito profissional, para que eu pudesse ter voltado e terminar jogando.
Danilo revive drama de lesão no Corinthians: "Poderia ter perdido a perna"
A lesão foi durante um treino?
— Foi um treinamento. Fui chutar uma bola no treino, e bateu canela com o canela. É uma fatalidade que às vezes pode acontecer.
Além da dor, o psicológico também deve ter sido muito difícil de lidar, com essa possibilidade até de não poder voltar a jogar. Como foi administrar a parte mental?
— Muito difícil, porque do jeito que foi, você voltar aos poucos, perna muito atrofiada. Eu voltei depois meio mancando. Foi aquele período de adaptação. Isso foi em 2016. Eu fui voltar a estar bem mesmo em outubro, no segundo semestre de 2018. Foi um período muito difícil. E tem essa decisão que eu falei: "Vou jogar mais um ano ainda e vou parar" e queria jogar em Goiânia. Foi por isso que acabei indo para o Vila Nova.
Você foi para o Vila Nova, já para encerrar a carreira, e começou no Goiás. Você procura as rivalidades, ou as rivalidades te procuram?
— Pois é, todo mundo fala isso. Você jogou nos dois rivais. É porque eu tive a minha lesão em 2016, muito séria. Eu fui estar bem em 2018. Eu joguei em 2017, 2018, também pelo Corinthians lá. Mas não estava tão bem. Até eles ofereceram na época para eu ficar lá como diretor. Eu falei que não, que eu queria jogar mais um ano, que era 2019. Ia dar preferência para jogar em Goiânia. Eu moro em Goiânia, então para mim ia ser bom morar em casa, jogar ali. Acabou que não teve nada do Goiás, e apareceu o Vila Nova naquele momento. É onde eu acabei decidindo ir para lá.
Com todo esse tempo que você jogou no futebol, vamos falar um pouquinho também do bolso. Deu para se estruturar bem financeiramente?
— Tranquilo. Eu sempre fui tranquilo. Sempre morei em Goiânia. Eu sou de Ibiá, Minas aqui. Mas sempre morei lá, então minha vida é toda em Goiânia. E essa parte financeira então sempre foi muito tranquila.
Você investe em outras coisas, além do futebol? Hoje você é treinador, mas também pensou em fazer outras coisas?
— Sempre mexe. Eu acho que cada um puxa para um lado. Sempre mexe com alguma coisa. Isso é importante, ter essa organização.
Falando um pouco da seleção brasileira. Como é para você não ter vestido a Amarelinha?
— Eu acho que faltou isso. Faltou um jogo. Se a gente pegar rendimento e títulos, eu sou um dos maiores jogadores que conquistou sem nunca ter vestido a camisa da Seleção. Eu acho que pelo menos um jogo ou outro, um amistoso, alguma coisa, eu poderia ter ido. Mas ao mesmo tempo, hoje eu sou um treinador e eu vejo também que minha posição tinha muitos jogadores bons. A concorrência era muito grande. Na época, a gente tinha Rivaldo, Ronaldinho, Gaúcho, Kaká, Alex, Juninho Pernambucano. Se a gente for lembrar, são muitos atletas de muita qualidade. Eu acho que por isso que eu não tive nenhuma oportunidade.
Então você não acha que tem uma injustiça nessa situação?
— Não, eu acho que não. Eu acho que foi mais por isso mesmo, a concorrência de ter grandes atletas na minha posição.
Mas se fosse para você escolher, qual o momento da sua carreira em que merecia ter um espaço na Seleção?
"No São Paulo, em 2005. Era novo na época. Foi um ano muito bom lá. Pelo menos um jogo (merecia jogar). Um jogo eu poderia ter ido também".
Antes de virar treinador, você tirou um ano sem futebol. Por que tomou essa decisão?
— Isso faz parte e é importante. Tem vários jogadores que param de jogar e, na cabeça deles, acha que tem condição de jogar mais. E, às vezes, até não tem mais. Só que é muito difícil essa rotina que a gente tem. Eu fui 20 anos direto de treino todo dia, de ter 20 dias só de férias. Essa rotina louca de treino, concentração e viagem. De ficar em casa só terça e quinta. Essa rotina é muito longa. Você, de um dia para a noite, não faz mais nada. Tem vários atletas que quando param, ficam um tempo meio que perdido nessa situação.
— Eu me lembro que optei e fiquei quase um ano sem assistir jogo na televisão. Falei: "Agora eu vou fazer tudo que eu não tinha tempo para fazer, eu vou fazer agora". Ir para o Pantanal pescar, para Barretos. Nunca podia, nunca ia porque a gente estava jogando e era um período que não dava. Nesse período, eu procurei fazer tudo isso: "todas as coisas que eu não fazia eu vou fazer agora e esquecer o futebol um pouco". Isso me deu uma refrigerada muito boa, e eu não tive problema nenhum.
Essa pausa foi importante para começar seu momento como treinador?
— Com certeza, isso foi importantíssimo. Depois foi onde eu voltei e parei um pouco, sentindo falta demais do futebol. Você acaba fazendo as coisas que você não tinha tempo. Chega um ponto que também fica um pouco ocioso e pensei: vou fazer o curso de treinador porque ele é meu perfil e vou voltar. Foi onde apareceu a oportunidade no Corinthians.
E quando você decidiu que queria ser técnico de futebol?
— Eu não me vejo fora, como diretor ou alguma coisa assim, fora do campo. Eu não queria. Se eu tivesse que voltar para o futebol, era dentro do campo, um auxiliar, um treinador. Esse era o meu objetivo. Foi onde eu tomei essa decisão de começar até lá por baixo. Na época, o Alessandro era diretor no Corinthians, e eu comentava, se pintar alguma oportunidade aí, eu já fiz o curso na CBF e vou ser treinador e já vou começar. E foi onde apareceu a oportunidade lá.
Qual a diferença da área técnica para o campo?
— Totalmente diferente. Tem ex-atleta que acha que vai virar treinador e vai ser uma maravilha. Acho que foi até o Alex que falou esses dias em uma entrevista sobre isso. Porque a maioria acha que foi um atleta profissional e vai ser treinador, e vai ser a mesma coisa. Eu vejo que é totalmente diferente. Tem muitas coisas que, para nós que jogamos futebol, como treinador, vai te ajudar. Mas não é tudo. Você precisa aprender a como lidar com o grupo. Taticamente, treinamento, preleção. São muitas coisas. Na nossa época, quando você joga, você se motiva sozinho, você vai lá, coloca sua chuteira, você joga e vai embora. E para ser treinador, você tem que organizar tudo, é tudo centralizado em você. Você precisa estar bem para fazer isso. E se você não estiver preparado, infelizmente, vai ter trabalho.
No passado, você disse que o Paulo Autuori mudou sua forma de jogar, que te transformou como jogador. Você traz alguma coisa dele hoje para o seu trabalho como técnico?
— Eu pego um pouquinho de cada um, mas eu vejo que, taticamente, em campo e posicionamento, ele me ajudou muito naquele time de São Paulo que a gente jogava. A função que eu fazia não era parada, às vezes com a bola eu virava um ponta, daqui a pouco eu era um meia, daqui a pouco era defendendo aqui atrás, era o segundo volante. Ele me ensinou muito taticamente. E faz parte isso também, às vezes tem muitos jogadores que vão falar: "eu joguei com o Danilo e fui bem, depois peguei outro treinador e já não consegui jogar mais". Faz muita diferença, para cada atleta, o esquema de jogo ser melhor para ele. É uma obrigação que o treinador tem de tirar o melhor do atleta e não deixar ele engessado ali.
Como foi com o Tite do Corinthians?
— O Tite também é outro que eu pego muitas coisas dele, de grupo, de estar todo mundo junto, de não ter vaidade, ninguém querer ser melhor do que ninguém. Ele é um gestor muito bom de grupo. Muitas coisas, eu concordo com ele, tenho a visão que ele tem e uso hoje em dia.
O Danilo treinador é parecido com o jogador? Ou o que tem de diferente entre os dois?
— Acho que é meio parecido pelo meu jeito. É muito difícil eu ficar nervoso, isso é importante, lidar com pessoas não é fácil. Você imagina: somos ali 25 jogadores; jogam 11; oito ficam de fora; quatro nem vão para o jogo; e você precisa manter todo mundo motivado. Você tem que tratar todo mundo da mesma forma, é fundamental para você ter o grupo na mão. E o meu jeito é mais tranquilo, é mais fácil de lidar.
Você tem alguma cartilha como treinador, ou alguma coisa que você exija dos jogadores?
— O importante é honestidade, de falar, de ser direto. Tudo parte daí. Quando tiver de cobrar, você tem que cobrar na hora de falar. O principal é ter um ambiente bom e falar para todo mundo que não tem cadeira cativa, que futebol é oportunidade. Vai ter um momento de cada um, e quem tiver melhor, vai jogar. Isso é o principal.
Como costumam ser as suas conversas no vestiário para motivar os jogadores antes da partida? Costuma pedir a palavra?
— Eu me preocupo muito em não citar o meu exemplo, como que eu fui como jogador. A gente tem uma passagem muito boa do (Vanderlei) Luxemburgo, estive com ele no Corinthians no jogo que eu fui interino, e ele chegou depois, e eu fiquei uma semana com ele. Ele me falou que, quando ele iniciou a carreira, teve um pouco de dificuldade porque ele queria que o jogador fizesse o que ele fazia. Ele era um ex-jogador, jogou em alto nível. Ele disse que, se eu não tivesse cabeça boa, eu teria um período de problema, porque os jogadores hoje em dia talvez não vão conseguir fazer o que eu fazia. Você vai querer cobrar isso dele, então acaba que vai gerar um estresse. É uma coisa que eu me preocupo muito, e eu não sou muito de citar muito exemplo.
Você falou que não gosta de usar o seu exemplo com os atletas, até para não criar essa comparação. Mas os atletas te procuram para perguntar?
— Tem alguns que perguntam, não muitos. Mas tem muita coisa que a gente fala, às vezes eles se preocupam, pelo tempo que eu tenho de futebol. A gente pega muitos jogadores novos, e eu procuro chamar, procuro falar que precisa melhorar nisso, se precisa melhorar naquilo. Queira ou não, se eles tiverem a inteligência, vão olhar e ver que vai ser importante para eles.
A tranquilidade que você sempre teve dentro de campo, como treinador, ajuda mais ou atrapalha?
— Ajuda. Ter um auxiliar também, cada um com uma cabeça, ele está sempre te ajudando ali. Mas eu acho que essa serenidade, a tranquilidade, em todos os setores da vida da gente, ajuda muito.
Você chegou no Corinthians sub-20 e foi campeão da Copinha; no Pouso Alegre, profissional, campeão do interior em Minas; agora, campeão da Série D do Brasileiro pelo Uberlândia. Você imaginava já começar a carreira como técnico dessa forma?
— Foi um ano memorável. A gente não espera, as coisas vão ficar acontecendo e, depois que acontece, você acaba olhando para trás e vê que as coisas estão acontecendo, e que Deus vem abençoando.
Você se imagina treinando São Paulo ou Corinthians?
— Eu te confesso que eu não almejo muito lá na frente. Eu sou uma pessoa que vivo o dia a dia. Eu vivo o amanhã, não adianta pensar lá na frente. Hoje eu estou aqui no Uberlândia, vou fazer o máximo aqui para que o time possa ganhar, possa ser campeão e, para frente, só a Deus pertence. Eu faço a minha parte, e Deus encaminha o resto.
Uma parte importante de ser treinador é lidar com a base, com esses novos jogadores que estão chegando. Mudou muito a forma como os treinadores tratam os garotos?
— A base é tudo no clube. Se você quer se sustentar e manter bem, tem que ter uma base boa. Mas para ter uma base boa, você precisa ter investimentos, ter profissionais e estrutura para isso. Eu vejo que tem muitos clubes que têm estrutura, mas, infelizmente, é muito desorganizado e acaba não revelando ninguém. E a gente tem o exemplo do Palmeiras, como revela jogador, como vende. Esse período que eu tive no Corinthians também, revelando mais de 18 atletas em dois anos e meio. O que a gente fez ali foi histórico para o clube. O Corinthians, que contrata muitos jogadores, que às vezes não tem espaço para a base. Nós pegamos esse período de colocar os meninos lá, de dar oportunidade e eu vejo que os meninos estão jogando, outros já foram vendidos. Isso só ajuda o clube.
Danilo é sincero sobre dificuldades na base: "Já acham que são jogadores"
Como é lidar com essa geração atual de jovens jogadores?
— Não é fácil. Eu acho que a empolgação é muito grande. Você pega um menino do Corinthians com 18 anos, daqui a pouco ele tem um contrato de quatro, cinco anos, o clube acha que é uma promessa. Ele infelizmente se empolga e acaba não virando nada no futebol. Tem muito isso também, de ter humildade, ter pés no chão.
"Hoje em dia, o menino acha que está no Corinthians e já é jogador do Corinthians, mas não é. Ele é um jogador que está sendo preparado e, daqui a pouco, acaba não virando por causa disso, dessa empolgação que eles têm".
É mais difícil encontrar jovens talentosos, ou é mais difícil desenvolver esses talentos?
— Eu acho que é os dois. Por isso que eu falo, o clube hoje tem que ter profissionais para isso, além de lapidar essas joias. Talvez ele tenha talento, mas os profissionais que estão treinando ali não evoluem ele, então não vai ser um excelente profissional. Acho que essa é uma junção de tudo.
O próprio Carlo Ancelotti falou sobre essa dificuldade da formação de meias, que não tem mais essa formação. Por qual motivo a gente está com essa dificuldade de formar um meia, o jogador clássico?
— É difícil a gente falar, mas como que esse menino não vem lá de baixo? Está escassa essa qualidade, esse talento. Vira e mexe aparece um vídeo, um treino de um menino de 10 anos aí com potencial gigante. Daqui a cinco anos, ele acabou não virando nada no futebol, e lá com 10 anos ele era um craque, tinha uma excelente projeção. Então depende muito. O futebol é muito de momento, e se define com 17 a 20 anos. Ali que fala se ele vai ser um excelente profissional, se vai ser um jogador, se não vai e acaba ficando pelo caminho.
Existe hoje uma preferência de procurar jogadores rápidos ou mais fortes?
— Tem um pouco. Acho que tem muito isso que eles falam como perfil. Ele tem um perfil de tamanho, de força, esse aí não tem, então não vai virar. Às vezes, os jogadores mais franzinos, pequenos, sofrem um pouco mais. Talvez você lapida ele lá na frente. Como ele é mais baixo, ele é mais rápido. Tem exemplo, Romário, Messi, são todos baixos, nenhum alto.
Depois de tudo que você viveu como jogador e como treinador, que legado você gostaria de deixar para o futebol brasileiro?
— Não de transformar nem de mudar nada. Eu acho que a gente precisa ter um time forte. Torcer para que a Seleção volte a ganhar. Porque, a partir do momento que ganha lá em cima, ajuda o futebol no contexto geral.
Tem algum ensinamento, alguma coisa que você viveu como jogador ou como treinador, que você acha que seria importante que mais pessoas soubessem no meio do futebol?
— Não tem nada assim demais. Eu acho que é difícil falar. Jeito, mania, cada um tem uma. Do jeito que eu joguei, é o jeito que eu procuro fazer como treinador, eu acho que é manter isso aí.
Se um garoto de uma cidade pequena chega em você para conversar, o que gostaria que ele aprendesse para ter o futebol como profissão?
— Eu tenho escolinha lá em Goiânia também. A gente procura sempre falar o seguinte: que eu também já tive no lugar deles ali. De ter esse sonho. Então é dedicação, é almejar aquilo. E ouvir bastante seus treinadores, para que você possa evoluir e chegar. Vai chegar um momento que você vai ter a oportunidade e vai ter a decisão, se vai ser um atleta ou não.
A gente conheceu o Danilo do futebol, treinador, jogador. Quem é o Danilo fora do futebol?
— Cara da paz, tranquilo, graças a Deus, muito bem em todos os aspectos. Pescar é um hobby, sertanejo, churrasco com os amigos, isso aí é uma coisa que eu procuro fazer bastante, é onde que eu me regenero psicologicamente.




