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Federação de Ginástica quer estrear IA em LA 2028: "Nosso sonho é não ter juízes"

04/11/2026

Federação de Ginástica quer estrear IA em LA 2028: "Nosso sonho é não ter juízes"

Rebeca Andrade conquista o tricampeonato mundial no salto

Quem acompanha ginástica, já se deparou com situações em que considera que seu atleta preferido recebeu uma nota abaixo do que deveria, enquanto que a apresentação do oponente teria sido supervalorizada. Para tentar acabar com questionamentos como este, o presidente da World Gymnastics, Morinari Watanabe, informou que está em negociações avançadas para estrear nas Olimpíadas de Los Angeles 2028 um sistema de Inteligência Artificial capaz de detectar erros em movimentos de ginastas que o olho humano deixaria passar.

Ao jornal "The Athletic", braço esportivo do "The New York Times", o dirigente explicou que a ferramenta começaria como um auxílio aos árbitros, mas depois poderia ser usada para tirar a decisão dos pontos das mãos e olhos humanos.

Rebeca Andrade na final do salto no Mundial de Ginástica Artística 2026

REUTERS/Yves Herman

- Nosso sonho é não ter juízes, apenas computadores e IA atribuindo notas. Devemos ser justos com todos. Não quero erros ou julgamentos equivocados - afirmou.

Apesar disso, ele riu ao ser questionado se o objetivo é não mais contar com os juízes humanos.

- Se eu me livrasse dos juízes, eles me matariam - brincou Watanabe, durante entrevista no Campeonato Mundial, realizado em Roterdã, em outubro, de onde Rebeca Andrade saiu como tricampeã do salto e Flávia Saraiva voltou ao Brasil como uma medalha de bronze na trave no peito.

Dirigente relembra casos emblemáticos em que notas foram questionadas

Chamado de Sistema de Suporte ao Julgamento, o mecanismo foi desenvolvido pela Fujitsu, uma das maiores companhias de tecnologia da informação do Japão. Ele começou a ser usado no Campeonato Mundial de 2019 em uma fase experimental, sendo expandido para todos os 10 aparelhos na edição de 2023.

O software utiliza quatro câmeras para a maioria dos aparelhos e oito para os exercícios de solo - em que as ginastas percorrem uma área maior - para reconstruir as séries de maneira tridimensional. A representação pode ser pausada, girada e examinada sob pontos de vista indisponíveis para os juízes. Além disso, ângulos são calculados, junto com o reconhecimento de elementos e descrição sobre de que forma as notas de dificuldade são calculadas. A análise fica disponível entre 10 e 15 segundos após o término da apresentação.

- A ginástica é um esporte maravilhoso, mas quando os espectadores veem uma nota, nem sempre entendem como os juízes chegaram a ela. Esse é um grande problema - pontuou o presidente da federação internacional responsável pela modalidade.

Árbitros analisam performance em competição no Brasil

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A partir deste argumento, Morinari tentar implementar o sistema nos Jogos Olímpicos. Ele, que é membro do Comitê Olímpico Internacional e integra a Comissão de Coordenação de LA 28, citou exemplos de casos em que o mundo da ginástica ficou debatendo notas tempos depois do encerramento do torneio, como em Atenas 2004, quando o sul-coreano Yang Tae-young recebeu uma nota de partida incorreta nas barras paralelas, erro que afetou a disputa por medalhas no individual geral masculino. Outro caso abordado aconteceu em Paris 2024, quando um o tempo limite de um recurso referente à nota de solo de Jordan Chiles virou uma longa batalha judicial por uma medalha de bronze.

Pesquisador e juíza destacam IA como auxílio nas notas

Willem Standaert é professor associado da escola de negócios da Universidade de Liège e coautor de um estudo de 2022 que analisou o julgamento de ginástica assistido por IA por meio de entrevistas com atletas, dirigentes e desenvolvedores de tecnologia. Para ele, substituir completamente os juízes humanos seria o "colapso da pirâmide”, ao trazer mais problemas, ao invés de solução.

- Um juiz humano olharia para a série e diria: 'Esta perna estava esticada'. A IA pode olhar e dizer: 'Bem, na verdade ela está a 179 graus'. O nível de exatidão é exato demais para os humanos - observou.

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A introdução de movimentos por ginastas seria outro desafio, visto que a nova acrobacia poderia ser desconsiderada pela ferramenta, se ela não tivesse sido treinada para reconhecer. O pesquisador aponta ainda que características significativas deste esporte não podem ser facilmente reduzidas a números, como nas provas de solo, em que a interpretação musical e a coreografia são valorizadas junto com a execução técnica. Um computador pode medir o ângulo de uma perna, mas não teria sensibilidade artística para avaliar uma apresentação.

Em paralelo, a árbitra austríaca, Johanna Gratt, que atuou com o sistema na competição realizada em Roterdã, reconhece o auxílio em casos difíceis para a tomada de decisões, mas relatou que há contextos em que é necessária a intervenção humana para que a análise seja corrigida. Segundo a profissional, o processo de refinamento prosseguirá e o mecanismo continuará somente como um assistente.

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O "The Athletic" ainda trouxe um estudo publicado em novembro em que pesquisadores compararam o sistema da Fujitsu com equipamentos laboratoriais de captura de movimento. Embora os resultados tenham apresentado certa consistência, não foram iguais. O Sistema de Suporte ao Julgamento mediu os ângulos máximos de abertura em uma média de 1,1 grau a mais.

Na análise do professor Willem Standaert, um sistema treinado com biotipos específicos pode ter um desempenho diferente ao avaliar ginastas de outras estaturas, proporções ou tons de pele. A ponderação, porém, é contestada pela empresa japonesa.

A Fujitsu assegura que os cálculos de pontuação não são enviesados e seguem as regras consolidadas do esporte, além de ter relatado que coletou dados de competições internacionais de diferentes anos, o que incluiu atletas com diferentes características físicas, cores de pele e uniformes.

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